21/02/2024 às 14h36min - Atualizada em 22/02/2024 às 00h18min

Quiet Ambition na tecnologia: tendência do “desinteresse” por cargos de gestão foi antecipada pelo setor e é positiva

Por Alessandra Conti, CHRO da SIS Innov & Tech*

Alessandra Conti, CHRO da SIS Innov & Tech
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Liderado pelos millennials e pela geração Z, o quiet ambition (ambição discreta, em tradução livre) é o termo do momento na área de Recursos Humanos. A expressão que dá nome ao movimento de rejeição às posições de liderança para ressignificar sucesso profissional e pessoal surgiu em uma reportagem da revista americana Fortune, mas o cenário brasileiro já estava mostrando a tendência.

Conforme revelado pelo estudo Carreira dos Sonhos 2023, da consultoria Cia de Talentos, 56% dos jovens estudantes ou recém-formados no Brasil consideram a qualidade de vida como um aspecto crucial. Em uma comparação ao levantamento feito cinco anos atrás pela mesma pesquisa, se observa uma mudança significativa: na época, 67% apontavam o sucesso no trabalho como prioridade.

Para o setor de tecnologia, no entanto, quiet ambition é um novo nome para um antigo cenário. Há, pelo menos, 20 anos temos visto mudanças no mercado de trabalho com a nova geração priorizando experiências em detrimento de aquisições e títulos.

O universo da Tecnologia da Informação (TI), inclusive, acompanha tudo isso com algumas facilidades. A começar pela consolidação do home office, que contribui para momentos pessoais de mais qualidade – mais tempo para estar com amigos e familiares ou para cuidar da saúde, por exemplo. Esse modelo que proporciona a flexibilidade de realizar tarefas sem a necessidade de estar fisicamente presente em um escritório já era comum para a área e foi intensificado nos últimos três anos.

O perfil comportamental é outro ponto importante nesse certo “desinteresse” pela gestão. Profissionais de tech, muitas vezes orientados para disciplinas exatas, tendem a ter características mais introspectivas e a preferência por tarefas que exigem mais foco e menos interações com o time. O que não é um problema uma vez que as squads de TI buscam equilíbrio entre perfis para cargos diversos. Já nos processos seletivos, a harmonização entre as características pessoais dos candidatos e as demandas específicas das vagas é essencial para a construção de equipes de sucesso.

Avalio como positivo esse panorama dos trabalhadores da nova geração enxergarem que podem crescer na carreira sem ocupar posições de gestão. Não apenas pela valorização da qualidade de vida, mas por entender que é uma possibilidade de termos pessoas mais realizadas no mercado de trabalho. Em termos de expectativa profissional, se todos quisessem ser líderes, teríamos muitas pessoas frustradas. No setor tecnológico, sempre veremos mais vagas de desenvolvedor do que gerente de projetos ou de diretor, para se ter uma ideia.

Ainda conseguimos nos diferenciar em dois pontos que entram na problemática do quiet ambition. A primeira delas é a questão salarial. Ao contrário de muitos outros setores, a área é capaz de oferecer remunerações semelhantes para profissionais técnicos e lideranças, uma vez que os especialistas podem absorver projetos simultâneos e, muitas vezes, até mesmo para empresas diferentes. A área de TI proporciona variadas formas de ganho. Assim, diminuem os desejos de alcance de cargo de liderança, que demandam mais responsabilidades, apenas pelo dinheiro.

Ainda assim, o mundo da TI sempre foi e, agora com o desenvolvimento mais acelerado da inteligência artificial, será cada vez mais um universo à parte – até mesmo pela quantidade de oferta e falta de profissionais, que ainda é uma questão. Atualmente, a maior dificuldade do segmento está na contratação de especialistas em plataformas específicas. À medida que o quiet ambition cresce, o desafio para as empresas será adaptar suas práticas e abraçar uma abordagem mais humana para garantir não apenas o sucesso dos projetos, mas também a satisfação de seus talentos.

*Alessandra Conti, CHRO da SIS Innov & Tech

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